Interludium

Reflexões anticapitalistas

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Enviado por Danilo Nakamura em: 14 - outubro - 2011 0 Comentários

O objetivo desse trabalho não é dissertar sobre o que Lukács “realmente disse” em “História e Consciência de Classe”. Nossa intenção é simplesmente buscar uma apresentação sintética de algumas idéias do livro com o intuito de levantar perguntas, questionar a validade de algumas afirmações e, principalmente, tentar defrontar algumas verdades contingentes do período em que o livro foi pensado com os dilemas atuais. Destacaremos o problema da organização política.

Pensar a altura de um grande acontecimento

O livro “História e Consciência de Classe” (HCC) de Georg Lukács não pode ser entendido sem termos em vista a Revolução Russa de 1917. Sua riqueza e suas contradições estão imediatamente vinculadas a esse grande acontecimento.

Só para ilustrarmos o abalo que a Revolução Russa provocou no pensador húngaro, lembremos do seu texto “O bolchevismo como problema moral” publicado em dezembro de 1918 pelo Pensamento Livre (Szabad Godolat), órgão do Círculo de Galileu. Trata-se de um texto anti-bolchevique, mas de caráter transitório, pois poucos dias depois Lukács adere ao Partido Comunista Húngaro.

Ele não questiona a necessidade da revolução, nem as condições objetivas para ela se realizar, o que está em jogo é a decisão do Partido. Diz o autor:

“Os Bolcheviques depois da vitória retiram do nome do programa de seu partido inclusive o termo democracia, e se declaram simplesmente comunistas. A possibilidade mesma de pôr o problema ético passa a depender da maneira pela qual se decide se a democracia faz parte tão somente da tática do socialismo (como instrumento de combate para o período em que é minoritário, enquanto luta contra o terror legalizado e ilegal das classes opressoras), ou se é parte integrante dele, de tal modo que seja impossível suprimi-la sem que antes sejam esclarecidas todas as suas conseqüências éticas e históricas”.[1]

 Haveria, para o Lukács dessa época, uma divisão no pensamento de Marx: análise sociológica (luta de classes) e Filosofia da História (socialismo como programa ético). Esses não seriam produtos do mesmo caminho conceitual. Assim sendo, a luta de classes não poderia ser mais que uma condição prévia, um fator negativo. A libertação seria um movimento da astucia da razão, porque essa vontade e esse querer um mundo novo faria do proletariado a classe messias da história do mundo.

Aqui, o socialismo aparece como um programa ético (vontade) para um novo mundo separado da realidade empírica. A luta de classes não conteria em si uma nova ordem, ela apenas modificaria a estrutura de classe, transformando o antigo oprimido em opressor. Assim sendo, a Revolução Russa seria um momento de decisão em que o dilema ético nasce. Ou assumia-se a ocasião para realizar o objetivo ou cair-se-ia no terreno do terror e da opressão.

“O dilema ético vem do fato de que cada atitude contém em si mesma a possibilidade de crimes monstruosos e de erros incomensuráveis, mas que deverão ser assumidos com plena consciência e responsabilidade por aqueles que se sintam obrigados a escolher”.[2]

 Sem nos alongarmos muito na analise desse texto, é interessante notar o impacto da Revolução em Lukács. Impacto capaz de torná-lo militante de uma organização política (PC Húngaro), de modificar radicalmente sua leitura de Marx e sua analise da Revolução Russa. HCC expressa essa mudança: A classe operária que já aparecia como a portadora da redenção social da humanidade, será vista numa outra dinâmica; o socialismo não aparecerá mais como um ideal que transcende a realidade social, ao contrário, Lukács criticará aqueles que separam os meios dos fins (ser e dever-ser); o Partido Bolchevique passará a ser justificado (alianças, táticas e etc.), o problema da violência tornar-se-á um problema histórico filosófico e a fundamentação ética do socialismo será o aspecto subjetivo da ausência da categoria de totalidade.

Mas dizer que o HCC é uma nova fase da evolução política de Lukács não nos ajuda muito, uma vez que há mudanças de perspectiva e análise dentro da própria obra em questão, por exemplo, o problema da organização política. O assunto é tratado de forma densa em “Observações metodológicas sobre a questão da organização” último texto da obra. Lembrando que apenas esse e o “A reificação e a consciência do proletariado” foram escritos especialmente para este livro, o restante são trabalhos de circunstância que nasceram em meio ao trabalho partidário.

Embora o autor nos alerte de que a reunião desses artigos não pretende-lhes atribuir uma importância maior do que teriam isoladamente, creio que podemos entender o texto sobre a organização política em decorrência da reificação da sociedade. E, pensando nos dois problemas conjuntamente, teríamos, mais do que uma polarização excludente de um Lukács “luxemburguista” dos seis primeiros textos versus um Lukács “leninista” dos dois últimos textos, dois caminhos para uma mesma estratégia, ou seja, a revolução socialista e a des-reificação da sociedade dividida em classes. Acontece que um foi historicamente derrotado (social-democracia alemã) e, o outro, longe de levar ao socialismo, foi uma revolução proletária vitoriosa, e isso teve um peso decisivo na teoria lukácsiana.[3]

Consciência de classe como possibilidade objetiva

O proletariado é o sujeito revolucionário porque ele vive a exploração capitalista e é capaz revolucioná-la. Ele é sujeito e objeto da engrenagem capitalista e, portanto, vê do ponto de vista da totalidade. O materialismo histórico é a álgebra da revolução porque estabelece a relação dos atores históricos com a sociedade enquanto totalidade, pois é uma teoria que surge da dinâmica histórica ao mesmo tempo em que influi nela[4]. Isso significa que o marxismo é o desenvolvimento teórico duma práxis social e ao mesmo tempo busca superá-la.

Para o proletariado o desenvolvimento do capitalismo significa: expropriação dos meios de produção e monopólio desses por parte da burguesia, desenraizamento e destruição dos vínculos sociais comunitários, fragmentação do processo de produção e do sujeito na divisão social do trabalho, atomização dos indivíduos na disputa por um lugar no mercado de trabalho e etc. E nesses termos o proletariado é objeto do processo de valorização do capital.

Mas o proletariado é simplesmente objeto de exploração, uma classe moderna de escravos industriais que periodicamente explodem em revoltas sem saídas?

Do ponto de vista do capital o proletário aparece como força de trabalho em oferta. Sua exploração (seu uso) é determinada como em toda mercadoria, pelo usuário. Seu valor de troca, o salário, é definido pelas leis do mercado e pelo custo de sua reprodução. Todavia, como Marx escreveu, a realidade histórica demonstra que tanto o valor de uso como o valor de troca da força de trabalho são objetivamente indeterminados, eles dependem da luta do proletariado (luta pela redução da jornada de trabalho e pelo aumento de salários, por exemplo).

E aqui é importante pontuarmos a importância da história para a teoria marxiana que Lukács percebeu muito bem. O proletariado nasce na sociedade capitalista, encontra-se nela, faz com que ela funcione e, portanto, sua emancipação é imanente ao processo histórico desencadeado pela burguesia a partir do século XVIII.[5] O papel do materialismo histórico é desnaturalizar o desenvolvimento dessa sociedade e buscar compreender a força motriz dela, ou seja, a luta de classes (desde o início de sua história o proletariado luta contra o capital, luta não apenas contra a miséria e contra a exploração, pois suas reivindicações atingem a produção e a possibilidade de valorização do capital). Eles se fazem socialistas e adquirem consciência de classe em suas lutas contra o capital.

“Porém, ainda que a consciência de classe não tenha realidade psicológica, ela não é mera ficção. O caminho infinitamente penoso e cheio de revezes da revolução proletária, seu eterno retorno ao ponto de partida, sua autocrítica constante, da qual fala Marx na célebre passagem do Dezoito brumário, encontra sua explicação justamente na realidade dessa consciência.

Somente a consciência do proletariado pode mostrar a saída para a crise do capitalismo. Enquanto não existir essa consciência, a crise será permanente, retornará ao seu ponto de partida, repetirá essa situação até que, finalmente, após infinitos sofrimentos e terríveis atalhos, a lição pedagógica da história conclui o processo da consciência no proletariado e coloca-lhe nas mãos a condução da história. Nesse momento, o proletariado não tem escolha. Ele tem de se tornar uma classe, como disse Marx, não somente “em relação ao capital” mas “para si mesmo”; isto é, elevar a necessidade econômica de sua classe ao nível de uma vontade consciente, de uma consciência ativa”.[6]

Tendo isso em vista, Lukács enfatiza que o processo revolucionário do proletariado, ao contrário das dos períodos pré-capitalistas, será um processo consciente e que a libertação do proletariado só pode ser obra do próprio proletariado, ou seja, uma auto-emancipação.

Reificação da sociedade

Agora, se é certo que a verdadeira consciência de classe nasce do desenvolvimento do proletariado no interior da sociedade capitalista também é certo que o proletariado sobre todas as formas é puxado a ceder frente à força do capital.

Como produto do capitalismo, o proletariado está necessariamente submetido às formas de existência do seu produtor. “Essa forma de existência é a inumanidade, a reificação”.[7] Lukács, para demonstrar essa submissão do proletariado na sociedade capitalista reificada expande o conceito de fetichismo da mercadoria.

“Lo  realmente importante es que el momento dialéctico del reconocimiento del mundo de las mercancías le revela a Lukács que la cosificación no es sólo el problema central de la economía, sino también “el problema estructural central de la sociedad capitalista em todas sus manifestaciones vitales”.[8]

 Em outras palavras, o fetichismo da mercadoria é interpretado como forma de objetividade da sociedade capitalista. Só que, mais do que isso, o fetichismo da mercadoria é também estrutura de consciência da época histórica produtora de mercadorias.

“E é justamente essa interpretação do texto de Marx o que permite Lukács detectar a presença de um mesmo princípio regendo tanto a divisão do trabalho nos moldes capitalistas como o funcionamento da ciência, realizando com isso a passagem entre base econômica e superestrutura ideológica prometida por sua investigação das “formas de objetividade” capitalista: “Com a especialização da atividade perde-se toda e qualquer imagem do todo. E dado que a necessidade de uma compreensão do todo que seja ao menos cognoscível não pode desaparecer, surge a impressão e a objeção de que a ciência – que também trabalha dessa maneira, ou seja, que também permanece nessa imediatidade – teria feito em pedaços a totalidade da realidade, teria perdido o olhar para o todo por força de sua especialização”.[9]

 A análise de Lukács segue demonstrando que a lógica da abstração do trabalho que se corporifica nas mercadorias generaliza-se e atinge a consciência filosófica e as ciências burguesas. Ciências naturais, História, Filosofia, Sociologia, Direito, Jornalismo… Lukács numa análise consistente demonstra que a especialização/fragmentação do conhecimento retira toda possibilidade de compreensão da totalidade. Portanto, as ciências são outro empecilho para possibilidade objetiva da consciência de classe revolucionária.

Outro ponto importante a ser anotado é: Lukács funde a categoria de Marx de trabalho abstrato com a categoria de Weber de racionalização (que se apóia na quantificação e na possibilidade do cálculo).

“E Lukács o afirma não sem pensar nas conseqüências disso para “o sujeito e o objeto do processo econômico”: não só a racionalização é impensável sem a especialização, como o “produto unitário enquanto objeto do processo de trabalho desaparece” e “a unidade do produto enquanto mercadoria já não mais coincide com a unidade enquanto valor de uso”; por sua vez, esse dilaceramento do objeto da produção significa “ao mesmo tempo, necessariamente, o dilaceramento de seu sujeito”.[10]

 Enfim, Lukács expõe os inúmeros obstáculos que o proletariado necessariamente tem que enfrentar para conquistar sua libertação (e de toda humanidade). E, dado que a forma de vida reificada se generaliza e atinge todas as esferas da vida social, a luta do proletariado é também uma luta contra si mesmo[11]. Mas como tornar essa possibilidade objetiva uma realidade? Como o proletariado deve se organizar? É preciso esperar o levante das massas ou criar um partido de vanguarda que direcione o proletariado rumo a sua “missão histórica”?

Organização operária  

Historicamente a luta do proletariado contra o modo de produção capitalista expressou-se na criação de organizações políticas (sindicatos, partidos, conselhos, soviets e etc.). O sucesso ou fracasso delas dependem da atividade da classe operária. Como disse Castoriadis: falar em sucesso é complicado uma vez que todas as revoluções foram vencidas e as organizações se degeneraram ou cederam demasiado espaço para o capital. Mas, ao mesmo tempo, falar em fracasso não significa resolver o problema de forma definitiva e dizer que “vai ser sempre assim”. Derrota das revoluções e degenerescência das organizações expressam, cada uma em seu nível, um mesmo fato: a sociedade estabelecida sai provisoriamente vitoriosa de sua luta contra o proletariado.[12]

Mas o que significa essa “atividade da classe”?

Nos primeiros textos de HCC, a atividade da classe operária aparece como algo imanente ao modo de funcionamento do capital. O proletariado é, ao mesmo tempo, o produto da crise permanente do capitalismo e o executor das tendências que impelem o capitalismo para a crise. “Ao reconhecer sua situação, ele age. Ao combater o capitalismo, reconhece sua situação na sociedade”.[13]

“No entanto, na unidade dialética da teoria e da práxis, que Marx reconheceu e descreveu na luta emancipatória do proletariado, não pode haver uma simples consciência, nem como “pura” teoria, nem como simples exigência, como simples dever ou norma de ação”. A exigência também tem sua realidade. Isto é, o nível do processo histórico que imprime à consciência de classe do proletariado um caráter de exigência, um caráter “latente e teórico”, deve se transformar em realidade correspondente e, enquanto tal, intervir de maneira ativa na totalidade do processo. Essa forma da consciência de classe proletária é o partido”.[14]

 Lukács apoiado nas concepções de Rosa Luxemburgo sublinha o caráter espontâneo das massas juntamente com a importância do partido. O proletariado se constitui no processo e o partido é uma conseqüência e não uma condição prévia do processo revolucionário. No momento da revolução, o partido transforma seu caráter de exigência em realidade ativa, “pois fará penetrar no movimento de massa espontâneo a verdade que lhe é imanente, elevar-se-á da necessidade econômica de sua origem à liberdade da ação consciente”.[15]

***

Todavia, Lukács modifica sua formulação no último texto de HCC “Observações metodológicas sobre a questão da organização”. O autor se viu na necessidade de pensar o problema, pois se trata de uma das questões mais importantes da revolução, embora pouco elaborada no nível teórico. Sua fonte de inspiração é o Partido Bolchevique (e Lênin) e os alvos de suas críticas são: Rosa Luxemburgo, SDA, mencheviques e, principalmente, todas as tendências oportunistas/reformistas. Se na formulação anterior Lukács enfatizava que o elemento político era algo intrínseco a atividade das massas e, portanto, não cabia ao partido nem provocar, nem evitar o processo revolucionário. Aqui Lukács diz que a tarefa do partido é dirigir politicamente todo o movimento, pois “(…) A Revolução Russa revelou os limites das formas de organização próprias da Europa Ocidental”.[16]

Lukács acusa Rosa de ter ficado ao lado dos mencheviques e de não ter compreendido as questões de organização e aliança, incompreensão que foi fatal para todo movimento fora da Rússia. Desde modo, a idéia do espontaneísmo como “a fonte da verdadeira atividade revolucionária” transforma-se numa “ilusão de uma revolução orgânica puramente proletária”. Escreve Lukács:

“Na luta contra a doutrina oportunista e “orgânica” da evolução, segundo a qual o proletariado conquistará gradualmente a maioria da população por meio de um lento crescimento e assim tomará o poder por meios de um lento crescimento e assim tomará o poder por meios puramente legais, nasce uma teoria revolucionária e “orgânica” das lutas espontâneas das massas. Não obstante todas as prudentes reservas dos seus melhores representantes, essa teoria resultou, em última análise, na idéia de que o agravamento constante da situação econômica, a inevitável guerra mundial imperialista e a conseqüente aproximação do período das lutas revolucionárias das massas provocam, com uma necessidade histórico-social, ações de massa espontâneas do proletariado, nas quais então será posta à prova, para a liderança do movimento, a clareza sobre objetivos e caminhos da revolução. Assim, porém, essa teoria transformou o caráter puramente proletário da revolução em pressuposto tácito”.[17]

Rosa não teria levado até as últimas conseqüências suas próprias conclusões sobre a acumulação de capital. Pois, se a acumulação de capital deriva necessariamente da tentativa de expandir o mercado de forma contínua e ininterrupta, dado que a capacidade de absorção do mercado interno é limitada e o capital é obrigado a expandir-se em escala mundial. Era uma conseqüência lógica Rosa Luxemburgo entender que a revolução em escala mundial não poderia ser organicamente proletária e, portanto, outras classes sociais apareceriam de maneira decisiva e a situação das colônias levantaria o problema da questão nacional.

  Dada a situação, Lukács enfatiza que essas outras forças sociais agem de forma caótica e podem tanto aderir à revolução como a contra-revolução. A Revolução Russa é o maior exemplo disso:

“O desenrolar da Revolução Russa em 1917 é o exemplo clássico de tal constatação: as palavras de ordem que reclamavam paz, direito a autodeterminação e uma solução radical para a questão agrária conseguiram transformar as camadas vacilantes num exército (momentaneamente) útil para a revolução e desorganizar por completo todo aparato do poder da contra-revolução, tornando-o impotente”.[18]

Na pratica essa organização dirigente de militantes disciplinados também nasce como produto da luta do proletariado, acontece que o operariado – imerso na reificação da sociedade capitalista e dividido frente à crise ideológica propagada pelos oportunistas mencheviques e sociais democratas – precisa da mediação do Partido Comunista. Considerando a heterogeneidade da classe operária seria pura utopia esperar dela ações espontâneas que levassem a humanidade do reino da necessidade para o reino da liberdade.

Lukács ao mesmo tempo em que bate nas organizações sociais democratas (que reproduziriam a lógica da sociedade burguesa dentro da própria organização) busca se distanciar da idéia de uma “seita” separada das massas (blanquismo).

 “Na luta do partido comunista, está em jogo a consciência de classe do proletariado. Sua separação organizacional da classe não significa, neste caso, que ele queira lutar pelos interesses da classe no lugar da própria classe (como fizeram os blanquistas, por exemplo). Mesmo que ele o faça, o que por vezes pode acontecer no curso da revolução, isso não ocorre, em primeira instância, devido às finalidades objetivas da luta em questão (as quais só podem ser conquistadas ou mantidas ao longo do tempo pela própria classe), mas com o intuito de estimular e acelerar o processo de desenvolvimento da consciência de classe. Afinal, o processo da revolução é equivalente – em escala histórica – ao processo de desenvolvimento da consciência de classe proletária. O fato de a organização do Partido Comunista se desligar de amplas massas da própria classe baseia-se na estratificação da consciência dentro da classe, mas pode, ao mesmo tempo, promover o processo de ajuste dessas categorias no nível mais alto de consciência que se possa alcançar”.[19]

Mais a frente:

“(…) os partidos comunistas (…) crescem organicamente a partir de uma crise econômica em conformidade com a lei, o passo decisivo, a reunião consciente e interna da vanguarda revolucionária numa organização, ou seja, o surgimento real de um partido comunista permanece como um ato consciente e livre dessa própria vanguarda consciente. (…) Do ponto de vista teórico, é preciso compreendê-lo corretamente nessa relação dialética dupla: ao mesmo tempo como forma dessa consciência e forma dessa consciência, ou seja, ao mesmo tempo como fenômeno independente e subordinado”.[20]

 Enfim, Lukács embora defenda um partido de vanguarda, insiste no caráter consciente da atividade da classe. A organização partidária é, para ele, um processo de relações dialéticas com o desenvolvimento das massas.  E, a criação da vanguarda deve ser um ato livre, um ato onde a vanguarda cria a si mesma[21].

Conclusão

“Como resolver a contradição, que salta aos olhos, ao primeiro passo prático do revolucionário, entre a força do entusiasmo, a coerência radical dos princípios por um lado e, por outro, o intelecto calculador, a necessária unilateralidade de toda política?” -Franz Mehring

Tendo em vista uma realidade histórica que se torna cada vez mais opaca, impenetrável e imutável, vimos que Lukács elabora nos últimos textos uma dialética da mediação capaz de superar as contradições capitalistas.[22]

Apegado as condições objetivas imediatas da Rússia, ele optou claramente pela opção leninista de partido como organização capaz de des-reificar a sociedade. Mas se lá em 1922 a opção era quase que incontestável, hoje o problema da organização aparece como um verdadeiro dilema.

Dilema, porque a Revolução Russa degenerou-se. E aqui é preciso pontuar: as escolhas organizacionais tiveram seu peso. Dizer que a Revolução foi derrotada por fatores como: isolamento internacional e atraso do país, não explica o porquê que ela pôde sair vencedora em 1917. Tampouco explica o fenômeno da burocratização e da falta de democracia que resultou, por exemplo, na eliminação física de seus opositores.[23]Lukács tinha isso em mente, todavia, escreve HCC como intelectual engajado, e fecha os olhos e/ou é rasteiro quando trata dos problemas da revolução. Por exemplo: “No período da ditadura, o tipo e a medida da “liberdade” dependerão do estado da luta de classes, do poder do inimigo, da intensidade da ameaça à ditadura (…) De Kornilov a Kronstadt estende-se uma linha reta”.[24]

Dilema, porque a degeneração de uma organização operária é também uma degeneração do próprio operariado. E aqui a teoria da reificação de Lukács pode nos ajudar a explicar essa degenerescência.

“Sempre haverá – enquanto durar o capitalismo – “condições objetivas” que tornam essa degenerescência possível; isso não quer dizer que ela seja fatal. Os homens fazem sua própria história. As condições objetivas simplesmente permitem um resultado que é o produto da ação e da atitude dos homens. No caso concreto, essa ação orientou-se num sentido bem definido: por outro lado, os militantes revolucionários conservaram-se em parte, ou se tornaram, prisioneiros das relações sociais e da ideologia capitalistas. Por outro lado, o proletariado conservou-se igualmente marcado por elas e aceitou ser o executante de suas organizações”.[25]

 E por fim, o problema da organização se coloca como necessidade de se pensar algo totalmente novo – como foi a Comuna de Paris em 1871, ou os soviets em 1905, ou os conselhos em 1918 – a altura das nossas dificuldades.[26]Hoje, a emancipação da humanidade, assim como ontem, não pode tirar sua poesia do passado, mas apenas do futuro.

Bibliografia

ARATO, Andrew. BREINES, Paul. El joven Lukács y los orígenes del marxismo occidental. México: Fondo de Cultura Económica, 19?? (edição colocada na pasta do xerox do curso).

CASTORIADIS, Cornelius. “Proletariado e organização, I” In: A experiência do movimento operário. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1985.

LOUREIRO, Isabel M. Rosa Luxemburgo  – os dilemas da ação revolucionária. São Paulo: Ed. UNESP, 1995.

LÖWY, Michel. Para uma sociologia dos intelectuais revolucionários – A evolução política de Lukács (1909-1929). Trad.: Heloísa Helena A. Mello e Agostinho Ferreira Martins. Trad. dos anexos: Gildo Marçal Brandão. São Paulo: Lech Livraria Editora Ciências Humanas, 1979.

LUKÁCS, G. História e Consciência de Classe – Estudos sobre a dialética marxista. Trad. Rodinei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003

NOBRE, Marcos. Lukács e os limites da reificação – Um estudo sobre História e Consciência de Classe.  São Paulo: Ed. 34, 2001.

ZIZEK, Slavoj. “De História e Consciência de Classe a Dialética do Esclarecimento, e volta”. In: Lua Nova n° 59. São Paulo: Revista CEDEC, 2003.


[1] LUKÁCS, G. “O Bolchevismo como problema moral” (Anexo). In: LÖWY, Michel. Para uma sociologia dos intelectuais revolucionários – A evolução política de Lukács (1909-1929). Trad.: Heloísa Helena A. Mello e Agostinho Ferreira Martins. Trad. dos anexos: Gildo Marçal Brandão. São Paulo: Lech Livraria Editora Ciências Humanas, 1979, p. 306.

[2] Idem, p. 308.

[3] Não estamos negando a mudança de perspectiva. A preocupação é não fazermos uma polarização excludente, uma vez que Lukács continua apoiado nas analises econômicas de Rosa Luxemburgo para justificar as ações do Partido bolchevique.

[4] Ver: LUKÁCS, G. “O que é marxismo ortodoxo?” In: História e Consciência de Classe – Estudos sobre a dialética marxista. Trad. Rodinei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 63-104.

[5] Data que podemos jogar para frente ou para trás. Tenho aqui como referencia a Revolução francesa e a “revolução” industrial.

[6] LUKÁCS, G. “Consciência de Classe” In: História e Consciência de Classe – Estudos sobre a dialética marxista. Trad. Rodinei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 183.

[7] Idem, p. 184.

[8] ARATO, Andrew. BREINES, Paul. El joven Lukács y los orígenes del marxismo occidental. México: Fondo de Cultura Económica, 19??, p. 184.

[9] NOBRE, Marcos. Lukács e os limites da reificação – Um estudo sobre História e Consciência de Classe.  São Paulo: Ed. 34, 2001, p. 50.

[10] Idem, p. 51.

[11] Arato e Breines dizem que Lukács jogou demasiada responsabilidade para a classe operária:

“Lukács no podia (y, claro está, no queria) extraer de las leyes, las ciencias, la burocracia o la tecnología ningún elemento de subjetividad y creatividad potencial, ni siquiera ninguna posiblidad dinámica. El resultado era que la carga teórica suportada por el proletariado revolucionario se volvía excesivamente grande”.

In: ARATO, Andrew. BREINES, Paul. El joven Lukács y los orígenes del marxismo occidental. México: Fondo de Cultura Económica, 19??, p. 195.

[12] CASTORIADIS, Cornelius. “Proletariado e organização, I” In: A experiência do movimento operário. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1985, p. 147.

[13] LUKÁCS, G. “Rosa Luxemburgo como marxista” In: História e Consciência de Classe – Estudos sobre a dialética marxista. Trad. Rodinei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 127.

[14] Idem, p. 127.

[15] Idem, p. 129.

[16] LUKÁCS, G. “Observações metodológicas sobre a questão da organização” In: História e Consciência de Classe – Estudos sobre a dialética marxista. Trad. Rodinei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 527.

[17] Idem, p. 536.

[18] Idem, p. 549.

[19] Idem, p. 572-573.

[20] Idem, p. 578-579.

[21] Sobre esse estimulo do partido sobre o proletariado Slavoj Zizek extrai interessantes “provocações”:

“Claro que Lukács opõe-se ao “espontaneísmo, que defende a organização autônoma das massas trabalhadoras em movimentos de base contra a ditadura imposta por burocratas do Partido. Mas ele também opõe-se ao conceito pseudoleninista (na verdade, de Kautsky) de que a classe trabalhadora “empírica” pode, deixada a ela mesma, apenas atingir o nível sindicalista de consciência, e que a única maneira dela passar a ser sujeito revolucionária é importando sua consciência por meio de intelectuais que, depois de compreenderem “cientificamente” as necessidades “objetivas” da passagem do capitalismo para o socialismo, “esclarecem a classe trabalhadora da missão implícita em sua posição social objetiva”. No entanto, é aqui que encontramos a abusiva “identidade dos opostos” dialética na sua forma mais pura. O problema com essa oposição não é que os dois pólos estão muito cruamente opostos e que a verdade se encontraria em algum lugar presente entre eles, na “mediação dialética” (a consciência de classe que surgiria da “interação” entre a consciência espontânea da classe trabalhadora e o trabalho educativo do Partido). Na verdade o problema está na idéia de que a classe trabalhadora tem potencialmente a capacidade de atingir a consciência de classe adequada, já que assim, se legitima o exercício da ditadura do Partido sobre os “trabalhadores, baseada na sua compreensão correta de quais são seus verdadeiros potenciais e/ou seus interesses a longo prazo”. Em poucas palavras, Lukács está aplicando à oposição falsa entre “espontaneísmo” e dominação externa do Partido a identificação especulativa de Hegel dos “potenciais internos” de um indivíduo na sua relação com seus educadores. Dizer que o indivíduo precisa possuir “potencial próprio” para se tornar um grande músico equivale a dizer que esses potenciais devem estar, de antemão, presentes no educador que, por meio de influência externa, estimulará o indivíduo a realizar seu potencial”.

In: ZIZEK, Slavoj. “De História e Consciência de Classe a Dialética do Esclarecimento, e volta”. In: Lua Nova n° 59. São Paulo: Revista CEDEC, 2003, p.173.

[22] ARATO, Andrew. BREINES, Paul. El joven Lukács y los orígenes del marxismo occidental. México: Fondo de Cultura Económica, 19??, p. 246.

[23] Pierre Broué um dos grandes historiadores do partido escreve:

“Desde a insurreição de outubro até o início da guerra civil, em maio de 1918, existe liberdade de imprensa na Rússia para os socialistas-revolucionários e os mencheviques. A situação dos anarquistas é diferente: já em abril, a Tcheca começa a agir contra eles. Entretanto, até julho, quando ocorre a insurreição dos socialistas-revolucionários, funciona no país um regime com vários partidos no quadro dos soviets. Em julho, a situação muda. É o fim do sistema soviético multipartidário e os bolcheviques ficam praticamente sozinho nos soviets. A partir de setembro, em resposta aos atentados dos socialistas-revolucionários de esquerda em Moscou, contra dirigentes bolcheviques, começa o chamado terror vermelho, levado a cabo pela Tcheca. Números oficiais registram 22 execuções nos seis primeiros meses de 1918 e 6 mil nos últimos meses. O historiador Chamberlin fala em 50 mil vítimas”.

Em nota no livro: LOUREIRO, Isabel M. Rosa Luxemburgo  – os dilemas da ação revolucionária. São Paulo: Ed. UNESP, 1995, p. 97 nota: 7

[24] LUKÁCS, G. “Notas críticas sobre a Crítica da Revolução Russa, de Rosa Luxemburgo” In: História e Consciência de Classe – Estudos sobre a dialética marxista. Trad. Rodinei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 522.

[25] CASTORIADIS, Cornelius. “Proletariado e organização, I” In: A experiência do movimento operário. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1985, p. 171.

[26] Como também disse Castoriadis, nossos atuais partidos e sindicatos fazem parte da ordem estabelecida. Os trabalhadores os apóiam periodicamente a fim de escolher o “mal menor” e, podem utilizá-los (principalmente os sindicatos)  como se utiliza um advogado ou o corpo de bombeiros. Idem, p. 173.

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